Nas fotografias espalhadas sobre a mesa, pedaços da existência. Uma imagem mais antiga da mamãe que ergue uma criança, aparentando pouco mais de um ano, numa paisagem talvez da cidade natal. Esta criança, como todas, entra num processo de crescimento, ganha um irmão que, com ele, assenta-se numa cadeira daquelas antigas, tão imponentes na sua contextura artesanal. Depois, já nos estertores dos anos cinquenta do século passado (ah, do século passado!) os quatro colegas de um sonho religioso juvenil se preparam para deixar as fímbrias da Mantiqueira pela região dos vinhos nas terras gaúchas. Reencontro-os nos Enfrades anuais ainda tendendo pelos apelidos de antanho: Lua, Chico Tripa e Chibeta.
Outras fotografias, agora dos anos sessenta da centúria passada, de uma convenção partidária, quando Sebastião Paes de Almeida era lançado candidato a governador, rodeado de figurões da época: Renato Azeredo, Israel Pinheiro, Navarro Vieira, entre muitos. Observo que apenas o escriba escapou da irmã Morte entre os fotografados do evento. Agora, num Congresso do Instituto Mineiro de Direito Administrativo, o cronista posa de conferencista e, em outra estampa, a presença amiga, quase paternal, do estimulador de uma especialização jurídica, o professor Paulo Neves de Carvalho. Viajo pelos jardins da saudade ao encontro dele, recostado no leito de enfermo: nossa conversa não abrangeu o Direito, mas poemas da esposa Irene. E aqui, outra lembrança, desta vez do saudoso Tito Costa, em um Congresso do Instituto Brasileiro de Direito Municipal, tendo o Ministro Aires Brito como personagem. Também, quando desta foto, a nossa conversa envolvia o livro de poemas que o magistrado tencionava editar.
As fotografias do ex-menino com sua mãe, do ex-jovem nos ambientes da vida religiosa, da militância político-partidária e mesmo da maturidade profissional no magistério, misturam-se com outras da antiga menina de dezessete anos abraçando as netas com o vovô, companheiro de roteiros há mais de quarenta anos. Continua, porém, bonita como sempre. Há o rosto do cronista transmudado nas jornadas, porque irremediavelmente exilado na curva final da estrada. À frente, apenas a chegada. Sei que constitui estranho enlevo este contemplar vagabundo de fotografias numa tarde de domingo. No entanto, impele a atitude procura de uma história, que se pretende reconstruir para recordar no íntimo. Recordar simplesmente. Afinal, a história vai acabar antes das fotografias.
Ao cabo de tudo, o tempo se encarregará de devorar as fotografias, quando não mais sobreviverem motivos de recordações pessoais. Olhar fotografias, portanto, é rememorar histórias e casos para nada. Passatempo ou arrependimento de não poder mudar o ontem. As últimas estações da vida não autorizam vislumbrar mais que um horizonte à espreita de uma noite sem manhãs futuras.










































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